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Memória é fundamental na literatura, diz Milton Hatoum

ResumoMilton Hatoum afirma que a memória é fundamental na literatura, pois estrutura a narrativa e dá profundidade às experiências humanas. O escritor lançou Dança de Enganos, fechando a trilogia O Lugar Mais Sombrio, e defendeu a empatia como ferramenta para enfrentar o presente. A declaração ocorreu na Flipelô, em Salvador.

Milton Hatoum lançou Dança de Enganos, último livro da trilogia O Lugar Mais Sombrio. Na Flipelô, ele explicou por que a memória é fundamental na literatura e como a empatia pode ser um remédio para o presente.

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Aline Furtado
· · 6 min de leitura
Memória é fundamental na literatura, diz Milton Hatoum
Foto: Imagem ilustrativa · Freecine

Milton Hatoum lançou Dança de Enganos, último livro da trilogia O Lugar Mais Sombrio. Na Flipelô, ele explicou por que a memória é fundamental na literatura e como a empatia pode ser um remédio para o presente.

Memória é fundamental na literatura, diz escritor Milton Hatoum

Na décima edição da Festa Literária Internacional do Pelourinho (Flipelô), em Salvador, o escritor manauara Milton Hatoum defendeu que a memória é um pilar da literatura. Desde Relato de um Certo Oriente, ela é objeto de investigação em sua obra. Com Dança de Enganos, lançado no fim do ano passado, ele encerra a trilogia O Lugar Mais Sombrio. Para Hatoum, a memória só ganha sentido quando o passado é trazido ao presente.

O que Hatoum disse sobre a memória na literatura?

"A memória na literatura é, vamos dizer, fundamental. Ela é uma espécie de musa tutelar dos escritores. Mas a memória não é algo que está cristalizado no passado. A memória só faz sentido na literatura, e eu acho que na própria vida, quando você traz o passado para o presente e ela adquire um significado mais forte. Porque tudo que nós vivenciamos hoje tem a ver com o nosso passado, não apenas recente, mas distante também", disse a jornalistas, antes de participar de uma mesa na Flipelô, no Museu Eugênio Teixeira Leal.

Dança de Enganos fecha trilogia sobre a ditadura

O novo livro de Hatoum é baseado nas memórias e anotações de Lina, a mãe de Martim, personagem central dos outros dois volumes da série: A Noite da Espera e Pontos de Fuga. Em Dança de Enganos, Lina assume a voz principal para expor as dores, os impactos e os traumas carregados por famílias dilaceradas pela ditadura militar.

A trilogia O Lugar Mais Sombrio trata dos dramas familiares nesse período. "Fala basicamente disso, de um grupo de jovens que passaram a infância, a juventude e uma parte da vida adulta durante um período de opressão, de autoritarismo, de brutalidade, de repressão e de censura. Isso é um tema tratado nesses três romances, mas não é o tema principal", explicou o escritor.

O tema central é a relação familiar

Segundo Hatoum, o fio condutor da trilogia é a família. "E esse último volume é o livro da mãe, que é um livro de memórias, justamente em que ela praticamente fala sobre a família, sobre ela e descobre coisas muito surpreendentes, e por isso o título é Dança de Enganos. Ela viveu durante um período da vida dela movida por enganos, por falsidades. E então ela descobre coisas que só mesmo essa presença da memória faz com que ela tenha consciência do que ela é", detalhou.

Hatoum na Academia Brasileira de Letras

Milton Hatoum é um dos nomes mais importantes da literatura brasileira contemporânea e tomou posse recentemente como novo membro da Academia Brasileira de Letras. "Por acaso, sou o primeiro escritor da Amazônia na Academia Brasileira de Letras. Mas continuo a fazer o que eu venho fazendo há mais de 35 anos, que é dar palestras, falar basicamente sobre literatura, ler muitos livros e escrever alguns poucos", afirmou.

Vencedor de diversos prêmios literários e cotado em listas de apostas para o Nobel de Literatura, ele lotou o auditório do museu na Flipelô. Em sua fala, revelou que a trilogia foi escrita como uma espécie de "vingança" ao que aconteceu no Brasil.

"Foi também uma vingança. Quem da minha geração participou do movimento estudantil ou participou ativamente da luta contra a ditadura, quem não perdeu amigos ou não teve um amigo preso, foi submetido à tortura", disse.

A imaginação como pilar do romance

Para escrever os livros, Hatoum recebeu diários e relatos de amigos que foram presos e torturados durante a ditadura. "E eu li muitas vezes chocado porque são relatos muito duros, de uma crueza assim incrível e impressionante. Mas eu usei muito pouca coisa desse material que eu li, porque eu queria, a partir do que li, inventar. Porque esse é o grande pilar do romance, a imaginação", contou.

Parte da trilogia também marca seu posicionamento sobre a atualidade, quando surgiram vozes no Brasil pedindo a volta do autoritarismo. "Foi o momento em que eu encontrei para também me posicionar. Não como um texto de denúncia porque eu não aprecio muito isso, nem de forma didática, mas eu mudei muita coisa sobretudo entre o segundo e o terceiro volumes. Eu reescrevi muitas coisas em função dessa catástrofe política que se abateu sobre o Brasil. Como é que eu vou definir essa gente? São absolutamente facínoras", afirmou.

A empatia como remédio para o presente

Para Hatoum, um dos remédios para o momento atual é a empatia. "A empatia também serve para a crise que nós estamos vivendo. Porque ela é exatamente o contrário, o oposto do egotismo. Uma pessoa empática integra as suas necessidades básicas ou vitais com o coletivo, com a necessidade dos outros. E é isso que falta", refletiu.

Ao responder perguntas do público, ele reforçou a importância da educação. Segundo o escritor, o desmonte da escola pública teve início com a ditadura militar e agora ela precisa ser reconstruída: "Isso seria fantasticamente um ato patriótico, de formar cidadania e de dar condições de igualdade a todos da escola pública."

A professora que o alfabetizou

Na Flipelô, Hatoum recordou a professora que o alfabetizou, Maria Luiza Freitas Pinto, personalidade citada também em seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras. "Pode parecer um pouco piegas, mas eu vou contar. Quando eu publiquei meu primeiro livro, eu morava em Manaus, em 1989. E ela estava na fila [para autógrafos]. Ela chegou, abriu a bolsa e disse: 'vou te mostrar uma coisa'. Aí ela tirou um papel amarelo, desdobrou e disse: 'Essa é a sua primeira redação. Eu guardei porque eu achava que você ia se tornar um escritor'. Ela morreu aos 104 anos. E até os 100 anos, ela ia aos lançamentos do meu livro", emocionou-se.

Flipelô 2026: festa literária em Salvador

A décima edição da Flipelô começou na última quarta-feira (5) e termina neste domingo. O evento acontece no Pelourinho, em Salvador, e reúne escritores, mesas de debate e lançamentos. Para quem acompanha o cinema e a literatura nacional, a festa é um espaço onde o Brasil respira cultura. cinema brasileiro em festivais literatura brasileira contemporânea

Perguntas Frequentes

Quando foi publicado Dança de Enganos?

O livro foi publicado no final do ano passado e encerra a trilogia O Lugar Mais Sombrio, de Milton Hatoum.

Qual é o tema principal da trilogia O Lugar Mais Sombrio?

O tema principal é a relação familiar, ambientada durante a ditadura militar brasileira.

Quem é Lina em Dança de Enganos?

Lina é a mãe de Martim, personagem principal dos outros dois livros da série. Ela assume a voz principal no último volume.

Onde Hatoum falou sobre o livro?

Ele participou de uma mesa na Flipelô, no Museu Eugênio Teixeira Leal, em Salvador.

Hatoum é membro da Academia Brasileira de Letras?

Sim, ele tomou posse recentemente como o primeiro escritor da Amazônia na Academia.

Qual a importância da memória para Hatoum?

A memória é fundamental na literatura, funcionando como uma musa tutelar que ganha sentido quando o passado é trazido ao presente.

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Aline Furtado

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